O BARDO SOMÁTICO: A EXPERIENCIAÇÃO DE MORTES, RENASCIMENTOS E A CONQUISTA DA GRAÇA ATRAVÉS DO ENRAIZAMENTO ORIENTADO E DA REGULAÇÃO NERVOSA
Sandra Regina (Sandra Anaki - Deva Yasha) Pereira
Zenodo (CERN European Organization for Nuclear Research) July 14, 2026 DOI: 10.5281/zenodo.21366901 via OpenAlex
Summary
AI-generated from the abstractThe article proposes a theoretical-practical correlation between the transition of consciousness described in the Tibetan Book of the Dead (Bardo Thodol) and Alexander Lowen's concepts of grounding and bodily grace in Bioenergetic Analysis. It argues that Bardo states—constant cycles of death and rebirth—are not merely metaphysical events but continuous somatic processes occurring in the musculature, respiration, and the body's energetic flow. The article analyzes nervous system dysregulation that arises when seeking altered states of consciousness without proper biological and somatic grounding. It proposes therapeutic body management through containment, oil application, and touch as the indispensable somatic foundation for returning to reality, serving as a basis for integrated, ethical, and transdisciplinary work with psychotherapy and psychiatry.
Study at a glance
| Characteristics | Theoretical or philosophical paper Peer reviewed |
|---|---|
| Interventions | therapeutic body management through containment oil application and touch |
| Keywords | Tantra Taste Humanities Art Philosophy |
| Key finding | Bardo states are continuous somatic processes, and therapeutic body management through containment, oil application, and touch provides the somatic foundation for safely returning to reality after altered states of consciousness. |
Abstract
O BARDO SOMÁTICO: A EXPERIENCIAÇÃO DE MORTES, RENASCIMENTOS E A CONQUISTA DA GRAÇA ATRAVÉS DO ENRAIZAMENTO ORIENTADO E DA REGULAÇÃO NERVOSA Sandra Regina Pereira (Sandra Anaki - Deva Yasha)¹ ¹Sobre a Autora: Sandra Regina Pereira (Sandra Anaki - Deva Yasha) é Terapeuta Somática Integrativa, facilitadora de grupos e uma das principais figuras femininas que ancoram o Tantra da Caxemira no Brasil. Com formação jurídica de base, esteve durante anos focados nas Relações Humanas no ambiente corporativo, até direcionar sua trajetória ao desenvolvimento humano. Integra a visão sagrada oriental às abordagens modernas ocidentais da terapia corporal, com foco em trabalhos Reichianos, Neo-Reichianos, Bioenergética e Somática Integrativa. À frente do Kaula Instituto Somático e de Massagem Indiana e Tântrica, atua na preparação de indivíduos e na formação profissional de terapeutas através de Cursos de Tantra e da Formação CSA (Cuidado Somático Avançado) e Tantra da Caxemira. Contato: kaulacentrodeestudosomaticos@gmail.com. RESUMO Este artigo propõe uma correlação teórico prática entre a transição da consciência descrita no Livro Tibetano dos Mortos (Bardo Thodol) e os conceitos de Grounding, enraizamento e Graça Corporal desenvolvidos por Alexander Lowen na Análise Bioenergética. Defende-se que os estados de Bardo, constantes ciclos de mortes e renascimentos, não são eventos meramente metafísicos, mas processos somáticos contínuos que ocorrem na musculatura, na respiração e no fluxo energético do corpo. O artigo analisa as dinâmicas de desregulação do sistema nervoso que ocorrem quando há a busca por estados alterados de consciência sem a devida ancoragem biológica e somática do sujeito. Propõe-se o manejo terapêutico corporal, através de contorno, oleação e toque, como o alicerce somático indispensável para o retorno à realidade, servindo de base para a atuação integrada, ética e transdisciplinar com a psicoterapia e a psiquiatria. Palavras Chaves: Bardo Thodol; Alexander Lowen; Terapia Corporal; Grounding; Regulação Nervosa; Psicologia Somática; Práticas Integrativas. ABSTRACT This article proposes a theoretical practical correlation between the transition of consciousness described in the Tibetan Book of the Dead (Bardo Thodol) and the concepts of Grounding and Bodily Grace developed by Alexander Lowen in Bioenergetic Analysis. It is argued that the Bardo states, constant cycles of death and rebirth, are not merely metaphysical events, but continuous somatic processes occurring in the musculature, respiration, and the body's energetic flow. The article analyzes the nervous system dysregulation dynamics that arise when seeking altered states of consciousness without the subject's proper biological and somatic grounding. It proposes therapeutic body management through containment, oil application, and touch as the indispensable somatic foundation for returning to reality, serving as a basis for integrated, ethical, and transdisciplinary work with psychotherapy and psychiatry. Keywords: Bardo Thodol; Alexander Lowen; Body Therapy; Grounding; Nervous System Regulation; Somatic Psychology; Integrative Practices. O BARDO DESCIDO À TERRA O budismo tibetano apresenta o Bardo como um estado intermediário de dissolução e transição. No entanto, quando trazemos o texto para um olhar fora do misticismo, encontramos um mapa de auto responsabilidade psíquica. A grande virada de chave deste artigo é deslocar essa navegação da mente abstrata para o território vivo do corpo. Morrer continuamente não é uma metáfora poética, é um rito de passagem somático. A cada ciclo que se encerra, a cada padrão crônico de comportamento que se dissolve, o corpo físico atravessa um colapso e uma reorganização. A impermanência não é apenas uma lei cósmica, é uma constante biológica. A DISSOLUÇÃO DOS ELEMENTOS NA COURAÇA MUSCULAR No Bardo Thodol, o processo de morrer começa com a dissolução progressiva dos elementos: Terra, Água, Fogo, Ar. Na terapêutica corporal, esse colapso se manifesta quando lidamos com as defesas e tensões do interagente. A rigidez crônica tentativa do ego de se manter sólido, imutável e blindado, equivale à resistência neurótica em morrer para o que foi. Quando permitimos o relaxamento profundo ou quando o indivíduo passa por um forte processo de luto e transformação, a musculatura precisa "entregar". É a sensação de desabamento, o elemento Terra se dissolvendo. Viver o Bardo no corpo significa ter a coragem de deixar morrer as velhas tensões, as couraças estruturadas por Lowen, para que a energia estagnada possa renascer em fluxo livre. GROUNDING COMO A TESTEMUNHA OCULAR DO CORPO Um dos maiores perigos descritos no texto tibetano é o praticante ser arrastado pelas visões aterrorizantes e pacíficas que surgem no espelho de sua mente. O livro clama pelo despertar da Testemunha, aquela consciência que apenas observa sem reagir com medo ou apego. Na abordagem corporal, a Testemunha não é uma abstração mental: ela é o enraizamento, Grounding Estar enraizado, com os pés firmes no chão, sentindo a gravidade e a própria base física é o que impede o indivíduo de ser engolido pelas ilusões da mente, pelos traumas do passado ou pelas projeções do ego. O Grounding oferece o suporte físico necessário para suportar a ansiedade das nossas pequenas mortes cotidianas. Ele é a âncora que nos mantém seguros enquanto o ego se desorganiza e se reorganiza no fluxo da vida. A VULNERABILIDADE SOMÁTICA DIANTE DA EXPANSÃO SEM ANCORAMENTO Não há que se falar em experienciação de forte catarse ou tentativas de ampliação da consciência sem o devido suporte de integração somática. É crucial demarcar que a verdadeira expansão de consciência não é, em hipótese alguma, a negação do corpo. Expandir a consciência não significa fugir da matéria para o sutil, mas sim enxergar o corpo físico de forma profundamente desperta e lúcida. O corpo não é uma metáfora poética ou uma alegoria do divino, ele é a própria divindade viva, biológica e encarnada. Quando os processos de busca operam por vias puramente mentais ou dissociativas, o indivíduo rejeita o corpo por não suportar as dores físicas e emocionais estocadas em sua biologia. No entanto, a prática somática exige o respeito ético a esse mecanismo: a dissociação e o escapismo abstrato, muitas vezes, operam como a única defesa disponível para que aquela estrutura psíquica não colapse diante do trauma. Essa recusa em habitar a própria carne, quando forçada ou desestruturada, gera uma sobrecarga no sistema nervoso, mimetizando estados de hiperativação simpática persistente, aquela pessoa ligada no 220, por exemplo. As manifestações incluem agitação psicomotora, insegurança crônica, labilidade emocional e uma incapacidade crônica de sustentar o próprio vazio existencial. O MANEJO TERAPÊUTICO DE CONTORNO: REGULAÇÃO E ANCORAMENTO FÍSICO É nesse ponto de colapso que o paralelismo entre o Bardo Thodol e a Análise Bioenergética se faz necessário. O livro tibetano avisa que o perigo não são as visões, mas a nossa reação a elas. O manejo terapêutico corporal não visa destruir ou eliminar abruptamente a defesa do paciente, que muitas vezes pode ser a única defesa que o mantém de pé, isso seria terapeuticamente imprudente e invasivo, mas sim oferecer o suporte somático necessário para que essa defesa possa ser gradativamente desnecessária. A intervenção corporal propõe um redirecionamento gentil, mas firme, da atenção para a realidade física, respeitando o tempo de assimilação do organismo. Diante da agitação do sistema nervoso, o terapeuta corporal atua fornecendo o contorno externo e seguro que o paciente perdeu temporariamente. O manejo exige técnicas de alto impacto sensorial, proprioceptivo e de acolhimento: oleação e toque contido com o uso terapêutico de óleos corporais e toques profundos de compressão que atuam diretamente nos mecanorreceptores cutâneos e profundos, estimulando o sistema nervoso parassimpático. Essa estimulação tátil pesada devolve ao sistema nervoso os limites e as fronteiras do próprio corpo, restabelecendo o contorno físico sem desorganizar as defesas psíquicas necessárias; co-regulação e vínculo: o terapeuta oferece sua própria presença estável, equilibrada e seu contorno físico como um porto seguro, acalmando o tônus muscular e reduzindo a resposta adrenérgica, o indivíduo pode necessitar de vínculo e conexão humana real para estabilizar o senso de segurança interna; enraizamento (grounding) dosado: a aplicação do enraizamento clássico deve ser parametrizada com precisão. Em estados de grande labilidade, remover a defesa de uma vez poderia causar pânico, ansiedade, por isso, o enraizamento deve ser construído em doses homeopáticas, o paciente precisa primeiro sentir o suporte externo, o futon ou a maca, o chão, o toque estruturado do terapeuta para que consiga, gradativamente, ganhar sustentação e testemunhar suas dores e suas transições com segurança. A INTEGRAÇÃO TRANSDISCIPLINAR E A ÉTICA PROFISSIONAL A proposta aqui é que qualquer experiência de expansão necessita ser metabolizada pelo corpo físico para se transformar em evolução real. O contorno e a regulação somática não concorrem com outras ciências, pelo contrário, eles constroem o alicerce biológico necessário para que as intervenções de saúde mental operem com real entrega, eficácia e segurança. A pacificação do sistema nervoso através da terapia corporal devolve ao indivíduo o senso de realidade. Uma vez ancorado e com o organismo minimamente regulado, o sujeito ganha a base necessária e a lucidez para procurar e sustentar, de forma integrada, a psicoterapia de base analítica e, nos casos em que a clínica médica indicar, o suporte da psiquiatria. O corpo regulado é um quesito para o trabalho integrativo da mente. A CONQUISTA DA GRAÇA E A DIVINDADE HUMANA Alexander Lowen definia a Graça como a manifestação física do fluxo livre de energia no corpo. Um corpo com graça se move com harmonia, respira sem